quinta-feira, 12 de julho de 2012

EUA rejeitam "green card" por tatuagens associadas a gangues

Por Miriam Jordan - The Wall Street Journal Em dezembro, Heitor Villalobos deixou o Estado americano do Colorado, onde mora, e foi ao México, sua terra natal, como parte do processo para obter o visto de residência nos EUA. Ele esperava ficar dois meses fora até concluir o processo. Sete meses depois, esse mexicano de 37 anos, que vive de pequenos consertos, ainda não conseguiu voltar para casa, onde deixou a mulher e os três filhos. O consulado americano não permite. O problema? As tatuagens no corpo de Villalobos - algumas associadas a gangues violentas no México. "Ele gosta de tatuagem, assim como muitos americanos", diz Veronica, a americana com quem é casado há seis anos. Segundo ela, o marido não tem ligação com gangues criminosas. Ele diz que fez as tatuagens, umas no México, outras nos EUA, só porque achou bacana. Advogados especializados em imigração dizem que, nos últimos anos, o temor de que gangues estrangeiras possam entrar nos EUA tem levado Washington a atrasar ou a negar o "green card" (visto de residência permanente) a certas pessoas com tatuagem. Levas de imigrantes, a maioria da América Latina, já foram pegos nessa peneira, mesmo tendo ficha criminal limpa. O visto é negado com base num artigo da lei de imigração que admite a "inadmissibilidade" em caso de risco à segurança nacional, incluindo a possível filiação a organizações criminosas. No ano fiscal encerrado em setembro de 2006, os EUA recusaram visto de imigrante a só duas pessoas por ter "razões para acreditar" que buscavam "única, principal ou incidentalmente" tomar parte no crime organizado. No ano fiscal de 2010, o mais recente para o qual há dados disponíveis, o número subira para 82 pessoas. Ter o corpo tatuado não é suficiente para que o pedido de visto seja negado, disse uma porta-voz do Departamento de Estado. Ela disse que, agora que as forças de segurança entendem melhor a relação entre "certas tatuagens" e facções criminosas, vem sendo dada "mais atenção a tatuagens como indicador de filiação a gangues durante o processo de [concessão] de vistos". O órgão não se pronuncia sobre casos isolados, disse ela. Especialistas dizem que muitas tatuagens que vêm dando dor de cabeça a imigrantes podem até ser associadas a uma ou outra gangue, mas são populares também entre o público em geral. Um exemplo: as máscaras que simbolizam o teatro, uma rindo, outra chorando, como a que Villalobos tem. "Se a pessoa tem tatuagem de gangue, é justo que o funcionário consular vá investigar se tem ligação com gangues", disse Ira Mehlman, porta-voz da Federação para a Reforma da Imigração Americana, grupo que defende restrições à imigração aos EUA. Críticos dizem que autoridades americanas estão tomando decisões que complicam a vida das pessoas e violam seus direitos. O mexicano Rolando Mora Huerta, casado desde 2008 com Madeline Cardenas, nascida nos EUA, já foi detido por estar ilegalmente no país. Fora isso, só teve problemas com a lei por dirigir em excesso de velocidade e consumir álcool antes da idade permitida, dizem advogados do casal. Ele também tem tatuagens e, em julho de 2010, teve o visto negado por "filiação a uma organização criminosa", segundo a notificação em espanhol do consulado. Cardenas, que é enfermeira em Nampa, Estado de Idaho, disse que o marido fez as tatuagens quando tinha 14 anos, antes de ir morar nos EUA. Em setembro de 2010, os advogados de Mora deram mais informações ao consulado, incluindo uma carta da polícia de Nampa atestando que não havia indícios de que o rapaz pertencesse a alguma gangue. O consulado não voltou atrás. Este ano, os advogados do casal recorreram junto ao Departamento de Estado, mas o órgão confirmou a decisão consular. Na semana passada, eles entraram com ação contra o governo americano numa vara federal contestando a afirmação de que Mora pertence a um grupo criminoso e argumentando que proibir sua entrada nos EUA viola o direito fundamental da mulher, que é americana, de estar com o marido. Depois do Natal, Villalobos foi a Ciudad Juárez para entrevistas no consulado ligadas ao pedido de green card. Um funcionário do órgão questionou Villalobos sobre as tatuagens e seu possível envolvimento com gangues, dizem advogados do mexicano. Villalobos negou qualquer relação. Em vez de aprovar o visto, o funcionário do consulado notificou o mexicano de que seu caso exigia mais análise. Não há prazo para a decisão. "Por eu gostar de arte, tentam colocar em mim uma máscara de pessoa má", disse Villalobos. Segundo autoridades do Colorado, ele não tem passagem pela polícia. Se o pedido de Villalobos for negado, ele e a família terão de decidir o passo seguinte. Sem a renda do marido, a mulher, que não trabalha fora, teve de cancelar o plano de saúde da família. Agora, depende da ajuda financeira da mãe.

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